- O Dr Rosimal já irá atendê-lo!
- Oi? Ah, muito obrigado.
Sim, eu estava entregue. Precisava encarar a situação de frente. Já não dava mais para aceitar aquilo. O consultório era muito bonito. A atendente era muito atraente também. Mas ela tinha aquilo muito mais do que eu. Todos tinham. Todos! Todos cheios, cheios de cabelos! Fios longos, curtos, mechas, penteados. A moda moderna capilar, acho eu, particularmente, muito feia. Mas eles podem ser feios. Eles podem tentar. E os meus? Me abandonam. Como filhos rebeldes fujões. Aos bandos. Minha cabeça lembrava mais o Bangu 1, tamanha facilidade de fuga. Mas eu estava lá, com a cara e a coragem.
- Sr, sente-se aqui, por favor. Precisamos fazer a ficha.
- Sem problemas.
Ela estava ali, sentada à minha frente com um sorriso extremamente sarcástico. Devia estar pensando “O que kojak veio fazer aqui? Quer desvendar o assassino de suas raízes capilares?”. Eu sabia que era isso.
- Em que posso ajudar? Qual o problema?
“Como se você não soubesse… A canalha está olhando para mim. Mas… Não para meus olhos. Ela… ela está olhando… para as minhas entradas!?!?! Tenho certeza. Eu poderia ameaçá-la com o seu bico de pato. Seria refém de seus próprios objetos.”
- Então, sabe como é, meus cabelos estão caindo descontroladamente.
- Hum. Entendo.
“Entende? Ah, quer dizer então que você entende? Menos mal não?”
- Mas vou avisando que cabelo não nasce do dia para a noite, ou seja, se mantiver os que estão aí já será um sucesso. Há pacientes que querem visitar o dr achando que ele fará milagre.
“Sucesso? Sucesso? Agora eu estou feliz, note a minha felicidade… NOTE!!! Você é médica por um acaso”
- Mas por quê? Será que Não tem mais jeito?
-Veja bem, O sr tem problemas de queda de cabelos…
“Ah, nossa, Obrigado! A atendente enxerida e cabeluda desvendou o meu problema. Serei eternamente grato a essa percepção que até um cego faria”.
- Entendo. Ficarei satisfeito em manter os sobreviventes.
- O Doutor já está a sua espera. Pode entrar.
- Obrigado.
Caminhava lentamente ao consultório. Ao entrar, vejo o Doutor sentado e escrevendo algo em seu caderno de anotações. Deparo-me então com uma das mais impressionantes e lustradas carecas que já vi. Era impressionante. Poderia me arrumar para um casamento olhando apenas para aquela massa de pele lisa e brilhante. Meu Deus! Sentia-me o Pepeu Gomes perto dele.
- Em que posso ajudar?
- Oi? Não, é que, o dr sabe, minha mulher insistiu muito para que eu viesse aqui doutor. São essas manchas, manchinhas bem aqui doutor. O dr. vê?
- Não, não vejo nada.
- É, então, aparecem mais à noite. Dá para entender?
O sorriso estava estampado. Não me continha em alegria. E eu reclamando da vida…
- Pode ser algo que o sr tenha ingerido. Andou comendo algo de diferente?
- Com certeza Dr. Deixei de comer aquele peixe de água doce, esqueci o nome… aquele… Grandinho…
- Hum, sei. Bom, se o Senhor melhorou então nem tenho o que receitar. Se voltar a alergia o Senhor volte aqui e examinaremos.
- Obrigado Doutor
- Interessante. A secretária havia me passado uma ficha constando problemas de quedas capilares. Havia até pensado em receitar o remédio que eu passo nos meus.
“Ele ainda passa remédio?!?!? O frasco dele deve durar uns três anos, no mínimo.”
- Olha dr, ela deve ter trocado as fichas. Houve um senhor que falou com ela e foi embora, deve ter sido ele. Pode ser que ficou constrangido.
- É, deve ter sido isso mesmo. Pode ir.
Fui embora saltitante. O tempo me castigará, eu sei. Mas, coitado. Não poderia fazer aquilo com ele. Estaria reclamando de barriga cheia. Com ele foi uma debandada. Ao vê-lo, pensei até em deixar meus cabelos crescerem e fazer tranças. Sabe? Como estão fazendo hoje em dia? A moda pega…
Autor: Thiago Petrin França