Invejas Cruzadas

maio 7, 2013

− Amor, vou sair hoje com o Ronaldo.

− Aquele seu amigo gay, de novo?

−Sim. Preciso ajudar com umas dicas para o buffet dele.

− Hum…

− O que foi?

− Nada, amor… Vai lá. Qualquer dia traga ele aqui para almoçar com a gente.

− Ainda bem que você é bonzinho. Beijinhos…

− Beijos.

− Amor? Olha o que eu trouxe para você!

− Nossa! Mas que jaqueta linda. Ei… mas nem é data especial nossa.

− E daí. Quero ver sempre meu marido bem vestido.

− Hum… Mulher, você tem outro e quer me agradar, é?

− Ai, que horror, Roberto. A gente não pode nem dar mais um presente.

− Sei. Hum… Então deve estar querendo alguma coisa. O que é?

− Ah, não é querendo comprar você, mas podíamos ir, no fim de semana, para praia. O que acha?

− Ok… ok… Vamos!

− Ai. Obrigada amor. Te amo!

− Olá, Rosa. Como vai?

− Bem, Amanda. E você e o Roberto?

− Ah. Arrastando né.

− Fiquei sabendo. Inclusive as meninas no salão disseram que apareceu um Príncipe aí na sua vida.

− Pois é, menina. Não paro de pensar nele. Falei até com o Roberto para irmos para a praia no fim de semana, para ver se assim apaga um pouco esse fogo que estou. Comprei um presente para ele e ele aceitou. E você com o Pedro?

− Ah, estamos bem. Farei uma festa surpresa de aniversário dele no buffet do Ronaldo.

− Ahhh, o Ronaldo é um amor… E um desperdício aquele homem lindo ser gay hein.

− Pois é, menina. Bom, mas espero que vocês se acertem.

− Ai, que inveja do seu casamento.

− Fala Roberto, beleza?

− Pedrão! Tranquilo e você?

­− Ah, cara. Mais ou menos. Sei que estou virando vitrola quebrada, mas acho mesmo que a Rosinha tem outro. Não sei o que faço.

− Mas como assim, cara?

− Ah. De novo saindo com aquele “amigo gay” dela que eu nunca vi.

− Ih, Rapaz. Sério? Por que você não a segue?

− Medo, cara. Medo de ver a verdade. Enfim. Não sei o que eu faço. Pior que tem a Paloma, do setor de vendas que está dando mole. Ela já é demais, ainda mais com a esposa vacilando assim… Mas eu sou uma besta que no fundo não consigo fazer nada.

− É, Pedrão. Você sabe que não sou o conselheiro mais certo para isso. Você me conhece… Ahhh Paloma… Dá mole para o homem errado hein. Se fosse comigo… Se minha mulher me ouve falando isso, me mata.

− Bom, penso nisso depois. E você com a Amanda, como estão?

− Poxa, Pedro. Estamos ótimos. A Amanda faz tudo por mim, me enche de presentes, é carinhosa… E agora quer ir para a praia. Acho que para ter uma segunda Lua de Mel ou algo assim. Senão até chamava vocês.

− Relaxa. A Rosa disse que estaria ocupada esse fim de semana também, provável que fazendo consultoria de novo para esse amigão gay dela aí.

− Entendi. Bom, mas espero que vocês se acertem.

− Que inveja do seu casamento.

Autor: Thiago Petrin


Rapidinhas

abril 30, 2013

No Trânsito

― Lúcia? Veja se não estamos esquecendo nada. Afinal, temos que atravessar a cidade toda vez que vamos almoçar na sua mãe.

― Está tudo aqui… Não, Adalberto… Espera! Está esquecendo a seta e o acelerador…

― Ué, Amor. Não precisa. Esqueceu que hoje é domingo? Bora…

Thiago Petrin


Devaneio

março 25, 2013

Louco por pensar em poder existir

Sem enxergar a minha lucidez

Sempre tentando querer omitir

Esse meu medo que tanto me fez

Descontrolar a minha vida triste

Atmosfera em que eu me joguei

.

Que eu escapei da vida, foi por pouco

Não deixei o meu “eu vivo” solto

Enganei-me que não sou um louco

Por pensar em poder existir

.

Sem enxergar a minha lucidez

Não se conformam no que eu me tornei

O fim cavalga chegou a minha vez

Semblante triste da embriaguez

Sombras atacam minha sensatez

Da morte a ideia que eu me conformei

.

Autor: Thiago Petrin


8 de Março – O Dia

março 8, 2013

Elogiar as mulheres é complicado demais. Medo de ser brega, medo se ser cafona, ou vulgar, ou meloso, ou vários outros “ous”. Dá aquele receio de falar algo errado… ou de entenderem algo errado. Porque homem é assim. Às vezes falta o toque feminino para conseguir expressar aquilo que sentem. Falta aquele riso fácil, o charme, o tom meigo. Depois, vem a dúvida das palavras que usar, porque todas parecem pouco para aquilo que queremos dizer. Percebemos que o simples muitas vezes pode ser o mais tocante. E então vemos que falar a uma mulher que ela é linda vale mais do que qualquer dicionário devorado ou poemas decorados.

Ser mulher é ser linda, ser mulher já é um elogio… que a natureza fez para a para a vida. Serem vocês mulheres é um presente para nós, que estamos aqui do outro lado. Por isso, hoje, seguramos em uma mão para parabenizar, e na outra para agradecer.

8 de Março. Dia Internacional da Mulher.

 

Autor: Thiago Petrin


Trilha Sonora

outubro 12, 2012

O Nascimento. Momento de uma descoberta muito maior do que se poderia imaginar. Nada em sua volta lhe é familiar, mas você resiste bravamente, e , como um bom homem, chora. O choro de alegria comovente de sua mãe é a primeira música que lhe vem aos ouvidos, em meio a bombas que decoram o visual do outro lado do oceano. O conforto do colo materno lhe atrai e o faz apreciar aquela sinfonia carinhosa.

Durante algum tempo, músicas de ninar tomam coro em seu dia a dia. Sem entender muito bem o porquê, um sono tranqüilo vem a dominar o seu pequenino corpo. As falas avançam e você passa a completar as últimas palavras das musiquinhas, agora mais alegres, mais divertidas, junto de sua mãe.  Com algumas músicas a mais, você passa a cantarolar com amigos, em rodas de ciranda, Quadrilhas Juninas ou na levada de brincadeiras. Mas não mais aquelas músicas que sua mãe cantava. Aquilo era coisa para criança, não é mesmo? À noite, ver seu pai ao lado do rádio ouvindo um tal de Sinatra, causa uma admiração que você mesmo não entende. Simplesmente fica olhando aquele cansado homem, sentado, com o olhar parado, pensando longe, notando o prazer que lhe proporcionam aquelas palavras que, certamente, não sabe o que dizem, mas que fazem todo o sentido ao senti-las, silenciosamente.

De repente, você se depara com um topetudo, vestido com roupas extravagantes, chamado Elvis Presley. E não é que ele dança bem? Vira uma febre. Géis e mais géis tomam conta de seu armário. É um arraso.

Ah, mas você queria conhecer mais. Quando quatro rapazes de Liverpool colocam o mundo de cabeça para baixo, você dança bailes ao som de A hard days nigth, e diz que quer segurar a mão da moça, fazendo alusão ao outro hit. Janis Joplin, Johnny Rivers, Rolling Stones, tomam conta de seus dias. O fim do mês nunca foi tão esperado. Assim que o pagamento vem, você corre para a loja de discos. Porém, músicas e bailes diminuem, e Let it be começa a prender mais a sua atenção. Love me Do soa nostálgico. É claro que com Satisfation tocando você ainda arrisca uns passos, mas nada de exagero.

Led Zeppelin conduz sua lua de mel. As calças ficam com bocas maiores que sua cintura, e você teima em não cortar esse cabelo. Seu filho tem a sorte de, além das músicas de ninar que ouve, conseguir adormecer em seu colo ao compasso de wish you were here. Eric Clapton o tranqüiliza nos momentos de brigas. Elton John o faz dançar para fazer as pazes. Acontece… No Domingo, “Gitá” e “Al Capone” animam o churrasco com a família.

Os discos vão aumentando na coleção e você lamenta por Iron Maiden não ter surgido antes. Gostaria de ter ido a um show, mas se tudo der certo, seu filho o representará com louvor.  “Vocês acham que isso é cabelo? Vocês precisavam ver o Elvis, aquilo que era atitude”. Essa frase nunca falha quando assiste a Jump. Van Halen definitivamente não o comove. Algumas coisas você não entende, mas acaba cedendo e compra o disco da Legião Urbana para seu filho. Essa história de estar pelado e com a mão no bolso o faz rir. Essa juventude não tem mais o que inventar.

É normal, após a morte de um artista, nós começarmos a admirar mais suas obras. “Regra 3” faz muito mais sentido agora, mas “Gente humilde “ é muito triste, prefere ouvir “Brasil”, com Cazuza.

“Na minha época, os jovens usavam roupas novas para sair com as meninas, e não essas roupas velhas rasgadas!” É, mas não há como lutar contra a onda Grunge. Você também foi rebelde para a sua época, por isso não peça para seu filho abaixar o volume de Smells Like Teen Spirit. Não existem mais músicas boas. Redescobre então Bee Gees na hora certa. “Como não gostava antes?” Essa pergunta nunca terá resposta…

Quando Oasis toca é inevitável o comentário “esses aí querem ser iguais aos Beatles, mas não tem comparação, vocês precisavam ver…” Cold Play, Vines, Hives, nada mais lhe toca. Ouvir “Gente humilde” lhe traz as lágrimas ao lembrar da sua infância. “Minha história” traz lembranças maternais. Revira discos antigos e acha Roberto Carlos. Lembra-se então que cantava “Despedida” nos dias que sua mulher o abraçava brincando de não querer deixá-lo ir trabalhar. Porém, agora, o último verso lhe soa muito mais longo.

Estranhamente as músicas de roda voltam vivas à sua cabeça. Canta sempre a todos as músicas que cantava para seu filho e que ouvia de sua mãe. Ao lembrar delas mentalmente o sono bate mais forte.   Até chegar o sono mais tranqüilo que já teve.

Autor: Thiago Petrin França


Corpos

junho 27, 2012

Quero o seu toque

Te sentir em mim

Eu em você

Como tranças humanas

Nos fazemos um só

Suspiros contidos

Pelos lábios mordidos

Querendo gritar

Aos quatro cantos

Que não acabe

Suor

Sua boca na minha

Minhas pernas nas suas

Suas unhas em mim

Movimentos descompassados

Loucos

Intensos

Que as nossas anatomias entendem

E coordenam

Da forma mais prazerosa possível

Ao terminar

O peso tirado dos ombros

O grito tirado da garganta

O suspiro fundo se alivia

A tensão desfaz-se

Em um desafogado pedido

De quero mais…

E mais…

E mais…

Autor: Thiago Petrin


Outro Planeta

junho 26, 2012

Sempre quis ser um ser de outro planeta. Saber costumes, nomes, expressões e, principalmente, como são os seres de lá. “Será que tem três olhos, ou sete dedos em cada mão?” Pensava eu todos os dias em minha cama, viajando pelo Sistema Solar, tentando olhar as estrelas e ver algum movimento diferente do dia anterior.  Minha mãe insistia em dizer “filho, não existem… não existem”, mas eu não desistia. Sabia que um dia iria descobri-los.

Fui crescendo e pesquisando mais e mais sobre o assunto, sempre querendo provar para a minha mãe que eu estava certo, mas, além disso, queria eu estar lá e poder ver com os meus próprios olhos. Ouvir o dialeto e não entender nada, sempre achando que estavam planejando a minha prisão. Aprender a me comunicar. Fazer amizade com eles. . Ah, comunicar… A comunicação entrou em minha vida. Chats e grupos de pesquisas invadiram meu cotidiano. Artigos e mais artigos devorados nessa procura sem mapa, tampouco referências. Mas nada nessa vida é fácil, e com muita luta venci esse desafio, e finalmente consegui.  Hoje minha mãe fica deslumbrada ao saber das novidades desse planeta habitado.

Obrigado, Terra, por existir.

 

Autor: Thiago Petrin


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