Ouvidos

Beethoven era um rapaz tranquilo. O nome, dado pelo avô – um dos músicos mais conhecidos da boemia carioca da década de 50, o obriga sempre dar a mesma resposta, para a mesma pergunta:

- Não, não toco piano. Meu avô que gostava de Beethoven.

Dizia não gostar de música clássica, mesmo sem nunca sequer ter tido o trabalho de ouvir alguma vez com atenção. O trauma de sempre ouvir as mesmas coisas, trocadilhos, piadas sobre seu homônimo o fazia distanciar da arte composta séculos atrás. Não preciso dizer que tampouco Beethoven tinha cachorros em seu apartamento.

Beethoven tinha uma vida comum. Próximo dos seus 30 anos, não dava ouvidos para aqueles que diziam a ele que precisava se ajeitar na vida, ter mulher, filhos, ou como dizem, constituir família. Andava noite adentro, pelos bares com amigos, aproveitando as malícias alheias. Não importa o estilo da casa noturna, não saía de casa para ouvir música, mas sim, para se divertir. Pessoas próximas admiravam seu jeito de levar a vida. Sempre alegre, risonho, o famoso “boa praça”.

Para o escritório em que trabalhava, dava adeus em meio a prantos falsos diariamente, arrancando risos daqueles que viam a cena. Porém, dessa vez, ao descer as escadas do prédio (os elevadores demoravam demais para alguém que deseja mais do que tudo a rua), Beethoven ouve algo. Um sussurro, com um tom de queixa. Olha para trás, para, pensa, ri e continua. Mas a voz volta e Beethoven, ao prestar atenção, consegue entender o desabafo “perdi o controle sobre ele, não consigo mais… fechei-o em um mundo que ficaria forçado tirá-lo. Terei de matá-lo”.

Ao ouvir isso, Beethoven olha desesperado para os lados. Uma estranha sensação o faz crer que a ameaça é para ele. Sente-se acuado. Assustado, procura a polícia.

- Eu sei que parece loucura, mas ouvi uma voz dizendo que tenho de morrer.

- Certo. Bom, senhor…

- Ah, sim, Beethoven

- Hum… O senhor toca piano?

- Não. Não toco. Mas eu não vi quem disse isso.

- Deveria tocar. É muito difícil tocar piano. A minha tia sempre quis me ensinar mas…

- Desculpe, senhor delegado, mas eu gostaria mesmo de saber o que eu faço.

- Pode entrar em uma escola. Nunca é tarde para aprender a tocar…

- Não. Isso eu sei. Quero dizer sobre o que eu ouvi.

- Olha, se você não viu quem disse, fica complicado ajudar. Acredito que seja estresse, afinal, ninguém sai falando essas coisas do nada. Pode ter sido algo da sua cabeça, um dia pesado no trabalho…

- Pode ser. Bem, muito obrigado.

Beethoven sai da Delegacia um pouco mais tranquilo, porém aquela frase ouvida ficava como um hit pop, repetindo e repetindo em sua mente, mesmo quando queria esquecer.

Voltando para casa, estava mais sossegado. Atravessando a passarela, porém, ouve novamente a voz. “poderia se jogar daqui de cima, mas não seria prudente…”. Beethoven então se desespera. “Como?”, pensava ele. Correu o restante da passarela, parou na banca de jornal do outro lado da movimentada avenida.

- Por favor, muitas pessoas se jogam dessa passarela?

- Por que quer acabar com a sua vida assim, menino?

- Não, meu senhor. Não quero me jogar é que…

- Como se chama, rapaz?

- Beethoven, mas isso não importa… é que…

- Você toca piano?

- Não, não toco, mas eu ouvi uma voz…

- Olha, menino, dê valor para a sua vida. Não a jogue fora por qualquer problema.

Visto que o caminho seria o mesmo do delegado, Beethoven desiste e simplesmente sai andando, sem dar mais ouvidos ao jornaleiro.

O apartamento vazio lhe trazia um silêncio insuportavelmente barulhento para seus ouvidos. Aquele desespero de não saber de onde vinha aquela voz. Aquela voz…

Ao ir para a janela, a fim de tomar um ar, ouve novamente a voz. “Suicídio? Não! Mas pode beber até a embriaguez o fazer cair da janela… Será?”. Beethoven se desespera. Pega sua garrafas e as joga no lixão do prédio. Toma água com certa dificuldade na tentativa de se acalmar. Decide então procurar uma resposta para isso. Concentra-se, fecha os olhos, não pensa em mais nada… Começa assim a ouvir mais e mais desabafos. Sim… Alguém tenta matá-lo, mas quem?

“Não posso decepcionar dessa vez. A editora tem que publicar… Eu sempre, sempre acabo caindo no mesmo problema. Fico presa à personagem e acabo dando finais óbvios. Mas dessa vez não! Vou matá-lo. Mas… como?”

Beethoven não entende aquilo que ouve. Como assim? Sempre? Personagem? Enfim, decide concentrar-se novamente.

“Não posso ter outro fracasso como em Dia e noite, macabra sensação”

Um estalo! Sim. Beethoven leu este livro. Procura tresloucado o livro em suas gavetas, no fundo de suas caixas. Tratava-se de um livro chato e insosso, em que as personagens eram todas iguais. Na metade do livro, Beethoven adivinhara o desfecho, passando as páginas apenas para ver se haveria alguma mudança bruta. Ele não acha o livro. Tem outra ideia e liga para o seu amigo Ricardo, crítico literário de um jornal da cidade, e pergunta sobre este título.

- Hum… Foi um fracasso. O livro era chato. Massacrei ele.

- Mas teve alguma consequência a carreira dessa mulher?

- Olha, ela ficou marcada, mas dizem que está escrevendo outro livro que será bombástico e…

- Sabe o nome dessa mulher?

- Sim. Francisca Teófila Xavier

- Obrigado!

E desliga o telefone. Apesar da ideia maluca em sua cabeça, decide procurar ajuda profissional. E nada melhor do que uma astróloga, com ênfase em numerologia, e especializada em metafísica contemporânea para ajudar. Era a namorada do primo de seu amigo da época de faculdade.

- Olá.

- Olá. Prazer, Beethoven.

- Ah, você toca…

- Não. Não toco.

- Ah… devia tentar apren…

- Eu sei… pensarei sobre. Mas podemos falar do meu problema?

- Ah, sim. Claro… Me desculpe. Olha, eu não vejo muitos casos como o seu, mas as suas energias, de alguma forma se cruzaram e a fizeram escrever alguém com a personalidade idêntica à sua, criando um magnetismo fictício-real que os estudos sobre o ser e seu universo paralelo mal conseguem explicar, mas o chamam de “paralelismo fictício-real…”

- Sério?

- Sim.

- E como eu faço para ela não me matar?

- Sério?

- O que?

- Que está me perguntando isso.

- Claro. Como eu faço?

- Ué, fala para ela para não matar a personagem…

- Simples assim?

- Sim.

- E como a encontro?

- Procurando…

E com o suspense em seu semblante, se despede de forma gestual de seu cliente… Claro que cobrando pela consulta.

Beethoveen passa dias de angústia, concentrado e esquivando-se de qualquer perigo do acaso. “Como vou sair dessa?”. Cansou de procurar o endereço da escritora. Não podia deixá-la encerrar o livro, caso contrário, o mataria. Decide então uma última tentativa, liga novamente para Ricardo.

- Você está louco Beethoven?!?! Elogiar aquela porcaria?

- Por favor!

- E por esse motivo maluco? Jamais.

- Eu sei, Ricardo, mas… Por favor…

- Olha Beethoven… Ok… Eu elogio.

- Lembra de tudo que eu disse, não?

- Sim, sim. A distribuição perfeita das personagens, o suspense, que espero que o próximo seja tão bom quanto e blá blá blá.

- Obrigado.

Beethoven aguarda ansioso sua mente trazer notícias da Serial killer de personagens. No dia seguinte, a notícia telepática vem. “Idiotas!!! Todos idiotas!!! Acham que me enganam? Vermes. Vou matá-lo, e matá-lo agora mesmo.”

Insanamente começa a escrever e Beethoven perde o controle de seu corpo. Levanta-se do sofá, corre em direção à janela e se atira. Ao chocar-se com o chão, ele acorda assustado. Olha para o lado e vê o convite para o lançamento do novo livro de Francisca Teófila Xavier, que Ricardo negara-se a ir devido às rusgas criadas pelas críticas da criação anterior da autora. Apesar de ter sido um pesadelo, sente-se finalmente salvo. Mas, quem seria essa assassina ocasional? Decide então ir ao lançamento. Afinal, além de conhecê-la de perto, um coquetel nunca faz mal.

Quando do lançamento do livro, Beethoven vai até a autora pedir um autógrafo. Prefere ser o último, para ter mais tempo para a sua análise. Depara-se com ela. Uma das mais lindas mulheres que já viu em sua frente. Seu queixo caído quase o impede de dizer…

- Oi

- Olá, autógrafo?

- Sim. Por favor…

Seus olhos vidraram naquele sorriso…

- Nome?

- Oi? Ah, sim, Beethoven.

- Bom gosto. Adoro piano.

- Obrigado. Meu avô que escolheu? Você toca?

- Um pouco. E você? Toca?

- Começarei aulas semana que vem. Deve estar morta de cansada de dar autógrafos. Não quer tomar algo depois da sessão?

- Claro.

É… Algumas coisas mudam de uma hora para outra…

 

Autor: Thiago Petrin (Baseado no filme “Mais estranho que a ficção”)

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